Viver no piloto automático: você está vivendo ou apenas dando conta da vida?

Talvez você já tenha dado essa resposta, talvez mais de uma vez:
“Está tudo bem. Só estou cansado.”
A vida segue funcionando. Você trabalha, resolve problemas, cumpre compromissos, apaga incêndios, lida com situações adversas nas relações, organiza o que precisa ser organizado e, quando termina uma tarefa, provavelmente já existe uma lista de outras esperando.
Aparentemente, está tudo bem. Muitos dizem: “a vida é assim mesmo”.
Mas será que estar dando conta de tudo significa, necessariamente, estar bem?
É possível passar dias, meses e até períodos inteiros da vida funcionando de maneira eficiente e, ainda assim, perceber que estamos pouco presentes naquilo que vivemos.
Não porque exista necessariamente algo errado. Talvez apenas tenhamos nos acostumado tanto a responder ao que a vida pede que, em algum momento, deixamos de perguntar o que nós estamos pedindo à vida.
Quando funcionar bem não significa estar bem
Existem pessoas extremamente competentes em fazer a vida funcionar.
São responsáveis, produtivas, organizadas. Sabem o que precisa ser feito e fazem. Frequentemente são aquelas com quem todos sabem que podem contar.
Nada disso é um problema.
A questão aparece quando essa capacidade de funcionar ocupa tanto espaço que começamos a perder contato com aquilo que sentimos, queremos ou precisamos. Perdemos contato também com o prazer de viver e usufruir das coisas boas da vida.
Nem sempre percebemos isso imediatamente.
Afinal, continuamos trabalhando. Continuamos cuidando das pessoas. Continuamos comparecendo aos compromissos. Talvez continuemos até realizando coisas importantes.
Por fora, a vida acontece.
Por dentro, entretanto, pode surgir uma sensação difícil de explicar.
Um cansaço que o descanso nem sempre resolve. Uma impressão de que os dias passam rápido demais. Uma vontade vaga de que alguma coisa fosse diferente, embora nem sempre saibamos dizer exatamente o quê.
Não precisamos transformar toda insatisfação em um problema psicológico. Mas também não precisamos esperar que ela se transforme em uma grande crise para começar a escutá-la.
Às vezes, um incômodo é simplesmente um convite para olhar.
Quando a vida vira uma sequência de coisas para resolver
Há períodos em que a vida realmente exige muito.
Trabalho. Casa. Filhos. Pais. Contas. Saúde. Relacionamentos. Projetos. Imprevistos.
Nem sempre podemos simplesmente escolher uma rotina tranquila ou diminuir todas as responsabilidades.
Os automatismos também são necessários. Não precisamos refletir sobre cada pequena tarefa que realizamos todos os dias. O problema talvez comece quando não são apenas as tarefas que entram no piloto automático.
As escolhas também entram.
Continuamos fazendo porque sempre fizemos. Mantemos compromissos porque sempre foram nossos. Respondemos da mesma maneira às mesmas situações. Seguimos em uma direção que foi escolhida anos atrás sem parar para perguntar se ainda queremos chegar ao mesmo lugar.
Ao mesmo tempo, começamos a fazer pequenas promessas para nós mesmos:
“Quando isso passar, eu cuido de mim.”
Quando terminar esse projeto.
Quando as crianças crescerem.
Quando a situação financeira melhorar.
Quando resolver aquele problema familiar.
Quando tiver mais tempo.
Quando as coisas estiverem mais tranquilas.
Só que a vida raramente fica completamente resolvida.
Uma pendência termina e outra aparece. Uma preocupação desaparece e uma nova ocupa seu lugar.
Enquanto esperamos que tudo esteja organizado para começar a viver da maneira que gostaríamos, os dias continuam passando.
Talvez seja importante perceber que a vida não começa depois das pendências.
Ela também está acontecendo enquanto tentamos resolvê-las.
Em que momento deixamos de perguntar o que queremos?
Existe uma pergunta aparentemente simples que pode se tornar muito difícil de responder:
O que eu quero?
Não o que precisa ser feito.
Não o que seria mais sensato.
Não o que esperam de você.
Não o que sua família precisa.
Não aquilo que seria mais conveniente para todos.
O que você quer?
Para algumas pessoas, essa pergunta produz respostas imediatas. Para outras, um silêncio.
Talvez porque tenham passado tanto tempo olhando para fora que olhar para dentro já não seja tão familiar.
Sabem exatamente o que os filhos precisam. Percebem o que o parceiro espera. Conhecem as exigências do trabalho. Antecipam necessidades da família.
Mas, quando precisam reconhecer os próprios desejos, podem encontrar dificuldade.
E não estamos falando necessariamente de grandes sonhos ou de descobrir um propósito extraordinário.
Pode ser ter mais tempo. Aprender alguma coisa. Retomar algo de que gostava. Trabalhar de outra maneira. Viajar. Mudar uma pequena parte da rotina. Ou simplesmente não precisar ser produtivo o tempo inteiro.
Ao longo da vida, é natural que alguns desejos deixem de fazer sentido. Mudamos, amadurecemos e fazemos novas escolhas.
Mas existem desejos que não foram exatamente abandonados.
Foram sendo adiados.
“Um dia eu faço.”
“Quando tiver tempo.”
“Agora não dá.”
“Mais para frente.”
Até que talvez deixemos de perguntar se aquilo ainda é importante.
Por isso, pode valer a pena recuperar uma pergunta:
Eu deixei de querer ou simplesmente deixei de considerar que poderia querer?
Reconhecer um desejo não significa que podemos — ou devemos — realizá-lo imediatamente. Mas talvez seja difícil construir uma vida que também seja nossa quando já não sabemos o que desejamos dela.
Não é preciso abandonar a própria vida para começar a vivê-la
Perceber que algumas escolhas entraram no piloto automático pode despertar a fantasia de que seria necessário mudar tudo.
Largar o trabalho. Mudar de cidade. Terminar uma relação. Começar novamente.
Algumas mudanças realmente são necessárias em determinados momentos. Mas autoconhecimento não precisa nos conduzir automaticamente a rupturas.
Antes de mudar a vida, talvez precisemos voltar a percebê-la.
E isso inclui olhar para a nossa própria história.
Muito antes de sabermos o que queríamos, aprendemos maneiras de viver observando aqueles que vieram antes de nós. Construímos referências sobre trabalho, dinheiro, relacionamentos, responsabilidade, descanso, prazer, segurança e sucesso.
Sob um olhar sistêmico, pode ser interessante perceber quais dessas referências se tornaram tão familiares que nunca pensamos em questioná-las.
Talvez tenhamos aprendido que uma pessoa responsável trabalha muito. Que primeiro vêm os outros. Que descansar é perder tempo. Que segurança deve vir antes da realização.
Essas ideias não precisam estar erradas. Talvez muitas delas ainda façam sentido.
A pergunta é se continuam sendo escolhas.
Quanto da maneira como organizo minha vida foi realmente escolhido por mim — e quanto simplesmente parecia ser o jeito certo de viver?
Talvez não seja preciso romper com tudo para descobrir isso.
Podemos observar o que fazemos, questionar o que repetimos, reconhecer aquilo que ainda faz sentido e perceber aquilo que já não faz.
Podemos inclusive descobrir que queremos continuar com muitas das coisas que já temos.
A diferença é que permanecer deixa de ser apenas continuidade e volta a ser escolha.
Uma vida mais consciente não precisa ser uma vida extraordinária. Precisa ser uma vida na qual conseguimos nos reconhecer.
Se esse olhar desperta em você a vontade de compreender melhor os padrões, escolhas e histórias que participam da construção da sua vida, esse é também um dos caminhos que aprofundamos no Eu Soul Aquarium, uma plataforma de conteúdos voltados ao autoconhecimento e à espiritualidade.
Entre os conteúdos de Autoconhecimento Sistêmico, a série Do Sobreviver ao Viver propõe justamente ampliar essa reflexão: perceber quando estamos apenas respondendo às exigências da vida e abrir espaço para uma maneira mais consciente de vivê-la.
Algumas perguntas sobre a maneira como você tem vivido
Talvez não seja necessário responder a todas agora. Algumas perguntas precisam apenas nos acompanhar por algum tempo.
Quando foi a última vez que fiz algo simplesmente porque queria?
Minha rotina reflete apenas minhas responsabilidades ou também aquilo que considero importante?
O que tenho adiado repetidamente?
Existem coisas que continuo fazendo apenas porque sempre fiz?
Sei dizer o que desejo para esta fase da minha vida?
Quando tenho tempo livre, consigo aproveitá-lo ou rapidamente encontro outra obrigação?
Estou construindo alguma coisa que também seja minha?
Se minha vida continuasse exatamente como está pelos próximos anos, como eu me sentiria?
Talvez algumas respostas tragam tranquilidade. Outras podem incomodar.
Mas autoconhecimento também passa pela disposição de fazer perguntas cujas respostas nem sempre serão aquelas que gostaríamos de encontrar.
Talvez dar conta não seja o problema
Ser responsável não é o problema.
Ter compromissos não é o problema.
Cuidar de outras pessoas não é o problema.
Existem fases em que a vida exige muito de nós. E existem responsabilidades que escolhemos assumir porque fazem parte daquilo que valorizamos e das relações que queremos construir.
Talvez a questão seja perceber quando dar conta passou a ocupar todo o espaço disponível para viver.
Quando tudo se torna obrigação.
Quando o descanso precisa ser merecido.
Quando nossos desejos ficam sempre para depois.
Quando os dias são preenchidos, mas nós já não sabemos exatamente onde estamos dentro deles.
Talvez viver não seja fazer mais coisas.
Também não precisa significar mudar tudo ou encontrar uma grande resposta sobre o propósito da nossa existência.
Talvez comece de maneira muito mais simples.
Quando voltamos a perceber.
Quando voltamos a perguntar.
Quando voltamos a escolher.
E, principalmente, quando voltamos a participar da construção dos nossos próprios dias.
Porque podemos passar muito tempo dando conta da vida.
Mas, em algum momento, talvez seja importante perguntar:
A vida da qual estou dando conta também é a vida que quero viver?

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