Vocês já pararam para pensar no quanto a nossa realidade mudou nesses últimos 50 anos? Antigamente, os amigos e vizinhos se juntavam para jogar queimada e futebol na rua, brincar de esconde, esconde e passa anel no quintal de um dos colegas… naquela época não ficávamos horas em frente a T.V, pois ter televisão era para poucos. Trocávamos ideias e fofocas entre nós sobre os novos “paqueras”, os ídolos do momento, músicas, tudo ali enquanto nos divertíamos. Era o rádio que fazia o papel de levar a todos os acontecimentos mais importantes da época; eram as novelas de rádio que faziam as pessoas se sentarem juntas na sala para acompanhá-las e, sem muito esforço, faziam as pessoas usarem sua imaginação ao ouvi-las. Até que as T.Vs foram se popularizando e entrarem nos lares dos brasileiros, para a alegria de todos — mas, adeus imaginação. Depois veio o telefone. Quem tinha telefone era rico! Pelo menos era o que eu ouvia dos meus pais. Até então, as famílias tinham que confiar uns nos outros quando iam e voltavam do trabalho, da escola, da igreja… Dava aquele gostinho de liberdade com responsabilidade, até que o telefone também se popularizou e todo mundo passou a ter um em casa — começaram as cobranças: Onde você foi? Chegou bem? Já está voltando? Por que está demorando tanto? E assim por diante. Outro adeus – agora foi da confiança. E chegou o computador! Ele chegou, primeiro como objeto distante, quase misterioso, depois como ferramenta de trabalho, de estudo e, mais tarde, de lazer. Se antes a pesquisa da escola exigia enciclopédia, biblioteca, caderno caprichado e uma boa dose de paciência, com o computador e a internet tudo passou a caber em uma tela. Melhorou o acesso à informação, encurtou caminhos, abriu portas para estudar, trabalhar e conhecer o mundo sem sair de casa. Foi outro adeus – dessa vez da interação com outras pessoas pessoalmente! Piorou a pressa. A espera, que antes ensinava tolerância, foi sendo substituída pelo imediatismo: se a página demora, irrita; se a resposta não vem na hora, incomoda; se a mensagem foi visualizada e não respondida, vira motivo de ansiedade.

Nas décadas seguintes, o celular mudou de vez a relação das famílias com o tempo e com a distância. O que antes era confiança virou localização. O que antes era saudade virou chamada de vídeo. O que antes era carta, bilhete ou conversa no portão virou mensagem instantânea. Avançamos muito na possibilidade de cuidar de quem está longe: pais conseguem falar com filhos, filhos acompanham pais idosos, famílias separadas por cidades ou países se veem pela tela. Por outro lado, regredimos em algo precioso: a capacidade de estar inteiro onde se está. Muitas vezes, a família se reúne na mesma sala, mas cada um conversa com outro mundo dentro do próprio aparelho.
    A televisão, que antes juntava todos em torno do mesmo programa, deu lugar às múltiplas telas. Cada pessoa passou a ter seu próprio conteúdo, seu próprio horário, sua própria bolha. Melhorou a liberdade de escolha, o acesso à cultura, ao conhecimento, aos filmes, às notícias e às diferentes formas de entretenimento. Mas piorou a experiência coletiva. A novela que antes era comentada pela família inteira, o jogo visto em conjunto, o rádio ligado enquanto todos faziam suas tarefas, foram sendo substituídos por fones de ouvido, vídeos curtos e conversas interrompidas pelo toque de uma notificação. Não temos mais interação!
Nos últimos 50 anos, portanto, a tecnologia avançou em velocidade impressionante. Ganhamos conforto, comunicação, segurança, praticidade, informação e oportunidades. Hoje se paga conta sem ter que enfrentar fila, se trabalha de casa, se estuda à distância, se reencontra parentes, se registra a infância dos filhos em fotos e vídeos, se pede socorro com rapidez e se resolve em minutos o que antes podia levar dias. No entanto, também perdemos algumas delicadezas: a conversa sem interrupção, o olho no olho, a paciência de esperar, o silêncio compartilhado, a presença real e a confiança que não precisava ser monitorada o tempo todo… bons tempos!
    O que melhorou foi a possibilidade de aproximação: a tecnologia permitiu que famílias se falassem mais, se encontrassem virtualmente, acompanhassem notícias umas das outras e tivessem acesso a recursos antes impensáveis. O que piorou foi o excesso: excesso de cobrança, de controle, de comparação, de exposição e de distração. O que avançou foi o conhecimento, a comunicação e a inclusão de muitas pessoas no mundo digital. O que regrediu foi, em muitos casos, a convivência simples, aquela de se sentar à mesa e conversar sem pressa, de brincar na rua até escurecer, de confiar no horário combinado, de ouvir histórias sem precisar checar o celular a cada minuto.
    E, no meio de tanta facilidade, talvez tenha surgido uma das mudanças mais preocupantes: o ser humano afetado, distraído, apático, muitas vezes desligado da própria realidade e do contexto ao seu redor. A tecnologia, que deveria ajudar a pensar melhor, em muitos casos passou a pensar por nós. O caminho já vem pronto, a resposta aparece antes da dúvida amadurecer, a opinião chega embalada em frases curtas, vídeos rápidos e verdades repetidas tantas vezes que muita gente nem se pergunta mais se aquilo faz sentido. Aos poucos, corre-se o risco de perder o hábito de raciocinar com profundidade, de questionar, de comparar informações, de observar a vida real e tirar as próprias conclusões.
Quando tudo é muito fácil, também pode se tornar mais fácil conduzir comportamentos. Olha o perigo espreitando! Pessoas cansadas, apressadas, distraídas e acostumadas a receber tudo pronto acabam mais vulneráveis a quem deseja influenciar suas escolhas, seus medos, seus desejos e até suas revoltas. É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e pode se transformar em instrumento de controle: não necessariamente pela força, mas pela repetição, pela distração, pela dependência e pela ilusão de liberdade. Quem não pensa por si, quem não observa o que acontece ao seu redor, quem não questiona o que consome, pode acabar se tornando massa de manobra sem perceber, defendendo ideias que nem sempre compreende e reagindo a estímulos que outros escolheram por ele.
    Mas, ninguém quer ouvir isso! Ninguém quer saber de nada disso!
    Talvez o grande desafio das famílias de hoje não seja rejeitar a tecnologia, porque ela veio para ficar, mas reaprender a usá-la sem deixar que ela ocupe todos os espaços — nem da casa, nem da mente, nem da consciência. A mesma tela que aproxima também pode afastar. Você já pensou nisso? O mesmo aparelho que protege também pode controlar demais. A mesma internet que ensina também pode confundir, alienar e manipular. Depende de quem, para que e como a usa. Por isso, depois de tanto progresso, fica a pergunta: será que estamos usando a tecnologia para melhorar a vida em família e ampliar nossa capacidade de pensar, ou estamos permitindo que ela substitua justamente aquilo que torna uma família e uma sociedade vivas — a presença, o diálogo, o afeto, o senso crítico e o tempo compartilhado?

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