Diariamente todos nós passamos por isso: a vontade de mudar o outro, moldar ele conforme nossas expectativas, conforme nossa visão de mundo.
Isso, por si só, não é algo ruim. você não se torna uma pessoa horrível por querer modificar o jeito de outra pessoa. Poderíamos até considerar um bom exercício de empatia: “o que eu faria se estivesse em seu lugar?”. Se olharmos desta forma o cenário muda, não?
Ter a capacidade de adentrar a vida de outra pessoa e analisá-la de uma forma minuciosa é algo necessário, assim podemos exercer nossa criatividade, isso faz bem. De certa forma, até mesmo podemos realmente ajudar essas pessoas, já que possuímos todos os caminhos possíveis de serem tomados por ela, sempre temos a resposta na ponta da língua, a solução de todos os problemas.
A única questão é: nós estamos realmente entendendo esta pessoa, ou estamos apenas analisando a vida dela da nossa própria ótica? Se me permite responder, a opção correta geralmente é a segunda.
Por mais que analisando a vida desta pessoa nós já conseguimos tomar lados, precisamos ter sempre em mente que estamos sendo apenas telespectadores, olhando de fora, sem ter a visão de dentro. Nós não sentimos da mesma maneira que esta pessoa sente, nós não vivemos da mesma forma, nós não temos todas as informações. Tudo que nós temos é o que a pessoa quer nos mostrar, nós temos uma atuação.
Você pode até afirmar que sabe tudo sobre essa pessoa, que vivem juntos, se conhecem a muito tempo ou “está na cara o que deveria ser feito, todos podem ver!”, mas eu venho aqui para te provar que você está se enganando.
Pense comigo, esta é a tática perfeita para nós: é melhor focar na vida de outra pessoa e dar sermões à ela sobre “como fazer as coisas do jeito certo” que nos voltarmos para nós mesmos e enfrentarmos nossos próprios demônios. Nesse meio nós temos um combo de posse sobre o outro misturada com arrogância e egocentrismo, mas todos estes possuem o mesmo cerne: a falta de si. Mas eu não te julgo.
Todos nós em algum momento de nossas vidas já nos sentimos assim, impotentes quanto aos nossos próprios problemas, com medo de perder o controle, onde tudo que queremos é esquecer dessas coisas e fugir da nossa própria vida. É um caminho natural. Quando olhamos de menos para nós mesmos, nos voltamos demais para o outro, e nisso descompassamos a balança.
Realmente preferimos nos ferir diariamente com o amargor de nunca ter tentado que arregaçar as mangas e consertar nossos problemas, e esse é o maior dos problemas. Por isso te digo: pare de fugir e use sua energia para consertar sua própria vida!
Se partirmos do princípio de que cada ser existente é único em nosso universo, que cada um possui uma missão, uma vontade, uma essência, qual seria o motivo de querer tolher a coisa mais preciosa que possuem? E pior, deixar de lado a nossa própria preciosidade?
Eu poderia vir aqui e lhe dar um sermão sobre como “cuidar da vida dos outros” é algo ruim, como um pecado, e isso quase aconteceu. “Como você pode achar que ajudaria de alguma forma se intrometendo na vida alheia? Acha isso justo? e se fizessem com você?”, mas preferi parar e refletir por alguns minutos, refrescar minhas ideias. Com o tempo você aprende a pensar em vez de reagir, ou pelo menos deveria.
Sabemos que muitas das vezes fazemos o que fazemos por amor, por querer ver mudança, a verdadeira felicidade na vida do outro, mas amor demais nem sempre é bem vindo. Todos nós temos nosso livre arbítrio de fazer nossas próprias decisões e de arcar com suas consequências, sendo boas ou ruins. Faz parte da vida, do nosso aprendizado.
“Permitir que uma pessoa seja sua essência é a forma mais pura de amor, mesmo que seja a mais difícil”. O que, de fato, isso significa? Pense. Não estamos falando em libertar essa pessoa, e sim de libertarmos a nós mesmos. “Permitir” algo que já é tão sagrado e certo quanto a liberdade de ser quem se é se mostra impossível, não temos controle sobre isso. A permissão que precisamos dar é a nós mesmos, como seres reais, de nos libertarmos da prisão de não nos reconhecermos o suficiente para olharmos para nós em vez de olharmos para o outro.
A mais pura e difícil forma de amor deve ser voltada primeiramente à você, voltada ao ser que lhe habita, a sua essência. Deixe o outro se resolver por si só, ter suas próprias experiências e, por fim, quando todos aprenderem a se olhar, poderão compartilhar suas histórias. O outro precisa viver, sentir e imprimir sua verdade sobre sua vida, e o mesmo você deve fazer. A ajuda é sempre bem vinda se oferecida da maneira correta, sem interromper o fluxo de cada um.
Lembre-se: todos nós merecemos à nós mesmos.